segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Palavras ao vento

As linhas repletas de sentimento, a cada palavra lida o coração pulsa mais forte. Declarações eternas, um futuro planejado e cheio de promessas. Idealizações. Dois anos de namoro rendem lindas cartas de amor. Minhas, dele. Linhas escritas com o coração e com a alma, que pedem para ser relidas diversas vezes. E fazem sonhar.

Palavras escritas muitas vezes surtem mais efeito do que palavras ditas ao pé do ouvido e sempre estarão lá, no papel, quando eu precisar delas para alimentar o sentimento. Os olhos procuram avidamente, percorrem as linhas em busca do que o coração quer sentir novamente: amor. Amor escrito, amor teorizado. E sobretudo vivido.

Mas não eterno. Chega um dia em que o castelo de sonhos desmorona e tudo está terminado. A vontade é pegar as cartas e rasgá-las em mil pedaços, botar fogo, jogar no lixo. Mas não, por algum motivo eu guardo. Porque, de alguma forma, elas são a única coisa concreta que restou de um amor abstrato e de um coração partido. Dessa vez as palavras produzem lágrimas quando lidas novamente. Parecem mentiras.

Depois de tanto tempo encontro as cartas em meio a papéis sem valor: a mesma letra dele, tão familiar em caneta azul, preenche as folhas de caderno dobradas. Folhas cheias de palavras, mas agora vazias de sentimento. O amor passou. A raiva também. E aí eu me pergunto: que sentido têm aquelas palavras agora? Nenhum. Elas não servem mais ao presente como cabiam no passado. Lidas agora, parecem soltas no ar, sem profundidade, sem sentido. Meras palavras jogadas ao vento sem veracidade alguma. Como reler uma carta de amor quando ela está fora do contexto? Talvez agora eu ria, ou finalmente jogue fora. Mas não consigo sentir mais nada, nem saudades. Estou indiferente.

Só não entendo como todo aquele sentimento pôde ser tão transitório! Todo o amor declarado e aparentemente eterno hoje se mostra fugaz, não passa de uma ilusão que brincou com meus sentimentos. Como as coisas podem mudar tanto? Como tudo aquilo podia ser amor... se passou? Então não era amor. Era paixão. Arrebatadora, intensa e camuflada de amor. E o que eu na verdade eu tenho são cartas de paixão. Porque o amor não morre junto com o fim de uma relação. E você só descobre que não era amor quando relê cartas depois de um longo tempo na ausência da pessoa.

Agora faz sentido: tudo o que é transitório e passageiro não pode ser chamado de amor. Nem as cartas. Hoje elas só trazem lembranças que eu quero esquecer. Tornam-se apenas mais algumas folhas de papel ocupando espaço, enquanto podem ser recicladas. Assim como os sentimentos. E a data que vejo no topo da folha prova que o prazo de validade já passou faz tempo. Expirou.
O tempo e a distância são grandes aliados do esquecimento. Ainda bem. Mesmo assim, hoje em dia continuo a mesma, me apaixonando e desapaixonando com freqüência, escrevendo e recebendo cartas, ainda sem saber se é amor. Um dia eu acerto.


Tema sugerido pelo blog Vou de Coletivo.

5 perdidos por aqui:

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Karina,
Compartilho de sua idéia, que o amor nunca morre, sequer no término de uma relação, já a paixão...

Beijos,
Ana Lúcia.
PS: Se quiser ler a minha carta, estarei lhe aguardando com um café bem quente e um papinho, também.

angela disse...

Espero que encontre seu amor, quem a ajude a ser feliz.
A gente muda, se transforma com as experiencias, o sentimento também muda.
Penso com Vinicius: "que seja eterno enquanto dure, posto que é chama"
Bonita sua carta e como desenvolve seu pensamento com poesia.
Abraços

Francine disse...

flor, tem um meme pra vc lá no meu blog :)

bjo

Ana Lúcia Porto disse...

Karina,
Agradeço por ter aceito o meu convite em dar um pulinho em meu blog e ler a minha carta. Irei passar por aqui também, pois há de convir, que você escreve muito bem. Aprecio essa qualidade.
Beijos,
Ana Lúcia.

Na. disse...

Não sei se o que é passageiro não pode ser amor. Acho que mais possível é que aquilo que chamais de amor na verdade não o era!
Concordo com a Ana, escreves muito bem!

Xerus
=***

 
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