domingo, 13 de dezembro de 2009

Molho de tomate

Todas as manhãs, no trajeto pro trabalho, vejo essa árvore da foto. Que me chamou a atenção por um motivo especial: a cobertura de flores que a reveste. Tão densa, que me lembrou claramente um molho de tomate. Juro que havia tomado café da manhã e não estava com fome no dia em que reparei nela, mas ao bater o olho a primeira coisa que me veio à mente foi isso. Achei diferente, bonito, interessante. Contrasta com o resto da paisagem de concreto, monocromático. Talvez porque seja a única coisa que tem vida ali.

Pois bem. Todas as manhãs eu passava e olhava pra árvore, até que um dia parei e tirei foto. Fiz bem. Dias depois, a cidade de São Paulo foi atingida por intensas tempestades e ventos furiosos. A correria da rotina me desviou a atenção da árvore e, algum tempo depois, quando lembrei de olhá-la, me assustei ao vê-la toda verde, sem as flores vermelhas e radiantes de antes. O que aconteceu? O vento arrancou, a chuva levou. Não sobrou uma pétala pra contar história. Senti dó e fiquei triste, como se tivesse perdido alguma coisa. Mas quem perdeu foi a árvore. Perdeu a graça. E transformou-se em uma árvore comum, como as outras. Tanto que, depois disso eu não lembrei mais de olhar pra ela quando passava pelo local. Não havia mais aquele encanto de antes, a diversão de olhar e pensar: "nossa, parece que derramaram molho de tomate em cima da árvore!" Acabou a graça. E, pelo fato de não haver nada de diferente na paisagem, acabei me esquecendo da árvore. Ela continua lá, mas raramente reparo nela.

E aí eu percebi que certas coisas só têm charme devido aos detalhes. Se não fossem as flores, a árvore não me chamaria a atenção. E isso serve pra tudo. A gente admira certas pessoas devido a uma característica da personalidade, um modo de se vestir, um jeito de falar. Compra uma blusa porque acha legal a estampa dela. Gosta de uma música porque o arranjo instrumental é divino. Olha uma árvore porque as flores chamam a atenção. São os detalhes que fazem toda a diferença e dão beleza ao conjunto. Certas coisas não teriam graça sem um "molho de tomate" pra destacar. Não teriam gosto e nem beleza. O charme está nas minúcias, nas peculiaridades e diferenças de cada um.

Um mês se passou e as flores não nasceram novamente. A árvore deixou de ser única, como se tivesse perdido sua personalidade. Tudo porque igualou-se às outras.

8 perdidos por aqui:

angela disse...

Tenho mais sorte que você, no meu caminho tem várias árvores floridas, de vermelho, muitas amarelas, roxas, brancas e tem arvores florindo o ano todo, menos que agora. Tem as que florescem no inverno como os ipês, as de outono como as quaresmeiras e as da primavera/verão como as acacias amarelas, os flamboyant vermelhos. Sei que tem ai por perto de sua casa que você já comentou e lamentou uma que foi podada.
Já me alonguei, mas tenho paixão por elas e pode deixar que no ano que vem ela vai florescer de novo.
A gente é um pouco assim floresce algumas vezes na vida até que fenece de vez e fica invisivel como sua árvore, então aproveite bem suas flores.
Quanto a sua analogia com as particularidades de cada um, concordo que são elas que nos marcam e nos identificam.
beijos e desculpe a faladeira

Rodrigo Cavaleiro disse...

Curiosamente, hoje, estou bebado, e o estado atingigido foi fácil pois eu não bebo. Minhas mães quando não durmo no trajeto são tão comuns, eu prefiro olhar as pessoas do que as coisas e já não sei dizer por quantas árvores ou quão comum se passa pelo caminho. Não depende da manhã o meu interesse, não há nada de bonito.

Gostei do interessante escrito e da comparação das peculiaridades de cada ser, fiquei um pouco triste com o post, pois lembrou-me "ela" ... afinal, amanhã quando sóbrio irei digerir o conhecimento aqui adquirido e explanarei aos ventos.

Brigado e beijo.

Ana Lúcia Porto disse...

Karina,

Adorei lhe ver novamente...!!

Espero que esteja dando tudo certo em relação aos seus trabalhos na facul...

Gostei muito desse seu post. A árvore estava esplendorosa..., linda mesmo... Até eu senti ao saber que o vento derrubou suas flores...

Concordo com você, damos mais atenção ao que vemos e não procuramos, muitas vezes, nos prender pelo que aquilo ou alguém nos representa... Certo de que, a vida corrida não nos ajuda muito a mudar esta situação.

Beijos,
Ana Lúcia.

Isabella disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Rosa disse...

Um Flamboyant! Salvo engano, é esse o nome dessa árvore, sempre a achei muito linda! Eu sempre pedia pro papai plantar uma na nossa casa, mas ela tem raízes mto longas, aih precisam de mto espaço... =\
haouehaouhe
Os detalhes são sempre essenciais mesmo...
Ah, adorei me perder por aqui! xD
abraços,
Ana Rosa

anarosar disse...

Gostei muito do que disse sobre saudade no comentário =)
Sinta-se em casa por lá ;D

Abraços! =)

garotabossanova disse...

Lindo texto, saudades dos teus escritos...E vc tem razão, a vida e a beleza dela está toda nos detalhes que a muitos passam despercebidos.Pequenas belezas e epifanias que só quem tem olhos de poeta consegue ver.Pessoas que como você,pinçam coisas lindas do cotidiano e vem cá para fora nos mostrar.

Abraço grandão!

Manú.

Ana Lúcia Porto disse...

Karina,

Feliz Natal, que o seu espírito se sinta renovado neste Natal, que você possa sorrir de coração aberto e que em 2010, tudo aquilo que vem desejando há um bom tempo seja, finalmente, realizado.

Beijos,
Ana Lúcia.

 
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