terça-feira, 12 de outubro de 2010

Flores e trovões

Era sempre assim: bastava ela sair de casa pra começar a chover. E naquela noite não foi diferente: já estava no meio do caminho quando a tempestade começou. Balbuciou alguma reclamação ou xingamento inaudível, abriu o guarda-chuva e continuou a andar, observada pelos motoristas parados ao farol. Sentiu inveja por terem um teto onde se abrigar. “Pelo menos não tenho trânsito no meu caminho! Rá!” – pensou, triunfante.

Mas logo foi atingida por uma rajada de vento que revirou todo o seu cabelo e molhou sua roupa, destruindo em segundos a produção que levara meia hora fazendo em casa. Por isso é que ela sempre se sentia feia, desarrumada e estabanada em dias de chuva! Era como um banho violento seguido de um secador enfurecido (o vento). Na chuva as pessoas perdem a vaidade. É inevitável.

E assim prosseguiu, se assustando com os raios, com pressa e sem um fio de cabelo no lugar. Mais pra frente viu uma mulher escorregar naqueles ralos de ferro da calçada e cair de costas no chão, soltando um “porraaa!” enfurecido que ecoou pela avenida movimentada, seguido do riso de algumas pessoas que se aproximavam para ajudar. Quanto caos! Quanta irritação! Quantos guarda-chuvas no caminho pra desviar!

Ah, como ela detestava chuva! Por mais que soubesse que era essencial ao planeta e coisa e tal, não podia deixar de se revoltar com os estragos que ela provocava: enchentes, deslizamentos, gripes, escorregões, quedas, programas legais com a turma desmarcados e por aí vai. Chegou à faculdade como um cachorro molhado. Não prestou atenção à aula, evitou o olhar do rapaz e deixou de tomar o sorvete de sempre. Tudo porque choveu.

Choveu, quando ela queria apenas a beleza e a cor da Primavera. Não era possível. Toda estação tem suas flores e trovões. E como era difícil lidar com a parte dos trovões.

(Imagem retirada do Google)

7 perdidos por aqui:

Ana Lúcia Porto disse...

Rs...!! Há dias, de fato, que possuem chuvas e trovões, mas é melhor não nos rendermos aos "desastres" que eles proporcionam...

Beijos e bom feriado,

Ivana disse...

Oi Karina,

O clima e estações não mantém mais suas características. Mesmo gostando de chuva, fiquei com pena do jeito que ela chegou na faculdade. Eu acho que hoje ela vai estar mais bonita, mais compenetrada na aula, os olhares mais intensos e o sorvete...o mais gostoso que ela já tomou! bjs

Rodrigo Cavaleiro disse...

Flores e Trovões por uma visão crítica masculina
[digo, visão de um moço chato e nu]

Eita sorte legal de toda vez que sai de casa, vem chuva.
Xingamentos de nada resolvem e devem trazer rugas.
Ah, eu odeio guarda-chuva!

Observada? Quanta prepotência dona Karina, você é sim muito linda, mas não significa que vão olhar para você...

Vento é mesmo chato, a água só não combina com algumas roupas...

"Na chuva as pessoas perdem a vaidade. É inevitável."
NÃO!!! Basta apenas bagunçar o cabelo um pouco mais, e dar um sorriso largo, com dentes para que os olhares masculinos se percam. [Homem adora cabelo bagunçado e mulheres sorridentes]. Esse sentir-se feia, desarrumada e estabanada é coisa de mulher insegura....

Mulher assustada é ótimo. Principalmente para conservar o sadismo masculino.

Prestar atenção à aula, pouco tem a ver com a chuva...

Evitar o rapaz é mais besta ainda... felizmente, fazendo isso eu não fico com ciume.

Trovões... =)



Beijo 'na parte lateral da cabeça com o cabelo menos bagunçado'....

Euro Azevêdo disse...

Bonito, =)

Mari disse...

Oi Ká!!!
Já fazia um tempo que eu não passava por aqui, e hoje resolvi dar uma olhada e dei de cara com esse texto ótimo!
Adorei! Sei bem como é essa coisa de se arrumar toda e a chuva vir e estragar tudo... Não só me identifiquei com o texto, como também não pude deixar de rir com a imagem da coitada da mulher caindo.
Texto leve, bem-elaborado e eu achei bem-humorado, por mais que falasse do transtorno que são essas chuvas.

Amei!

Beijos!

angela disse...

Nessas horas só o humor pode salvar.
Lindo texto.
beijos

Francine Ramos disse...

Pensando nas metáforas nas entrelinhas. Gostei demais dessa crônica, flor :)

Beijos!

 
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