terça-feira, 4 de agosto de 2015

Strike!

A vida é um jogo de boliche. No começo, milhares de pinos, você não sabe diferenciar um do outro, todos tão próximos e unidos. Mas quando a bola (vida) começa a rolar, sabe que alguns vão cair.

O que sempre me fez ver certa semelhan
ça com a realidade. Todas aquelas pessoas ao seu redor formando uma unidade, até você ir descobrindo que muitos não vão se manter íntegros até o fim da jogada. Por isso caem. 

Certa vez, ao contar essa teoria maluca prum amigo, ele disse: “Cuidado pra não fazer strike, hein!” - E hoje, anos depois, posso contar nos dedos os pinos que sobraram.

Mas, ao final de cada jogada, o que consola é saber que novos pinos serão colocados no lugar.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Coisas simples

Porque às vezes a gente tem que parar pra observar as coisas mais simples.

Um céu extremamente estrelado.
Um final de tarde particularmente azul.

Um tapete de pétalas na praça aqui perto de casa.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O tempo e o vento

Sou uma pessoa que vive descabelada. O fio do meu cabelo é muito fino e qualquer ventinho já o deixa todo revirado. No trajeto diário ao trabalho, pego uma saída de metrô onde há uma corrente de vento muito forte. Então já viu: chego no serviço com uma aparência digna de Elba Ramalho.

Num desses dias, subindo a escada rolante do metrô, peguei a famosa corrente de vento à la furacão e pensei: "Vento filho da...! já revirou todo o meu cabelo!". No mesmo instante, para ao meu lado na escada um garotinho nos seus cinco ou seis anos, e diz: "Aah que ventinho bom!!".

Na mesma hora parei e, vendo o contraste da coisa, pensei: "Cara! Como o mesmo degrau de uma escada pode conter pontos de vista tão diferentes?". O menino encarava tudo numa boa e os ventos estavam a favor dele. E acho que não à toa ele parou do meu lado: eu precisava perceber que, em algum momento da vida, desaprendi a gostar do sabor do vento. Onde perdi isso? No tempo. Na distância de mais de vinte anos que me separava daquele garotinho, a vida adulta me fez deixar de me levar pelo vento. E eu e o garoto subíamos a escada para a mesma direção. Fiquei preocupada que ele chegasse ao mesmo lugar que eu quando adulto.

Outro dia, no avião, eu lia uma crônica sobre um pedaço de isopor que voava ao sabor do vento até encontrar um garotinho que o transformou em barco e mudou todo o seu destino. O garoto foi embora sem se dar conta de que tinha mudado o destino do pedaço de isopor. Foi mais ou menos o que aconteceu aquele dia no metrô, mas ao contrário da crônica que li no livro, ao encontrar o garotinho, passei a voar mais ao sabor do vento.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Dente-de-leão

Onde quer que eles passassem, a flor sempre aparecia. Branca e redonda como algodão. Eles a arrancavam da terra e sopravam juntos, vendo os fiapos brancos dispersarem-se no ar. Às vezes o próprio vento fazia o trabalho, antes mesmo de soprarem. Em questão de segundos, o que era flor estava desfeito.

Nada é mais irônico do que dente-de-leão: nome forte pruma flor tão frágil. Que se desfaz à menor brisa. Assim como alguns relacionamentos. Talvez por causa disso eu e ele tenhamos confundido a fragilidade da flor com a do amor, o arrancamos da terra firme e sopramos, vendo as lembranças voarem em mil pedaços ao sabor do vento.  Quando percebemos, era tarde. Em segundos, o que era amor estava desfeito.

Há coisas que se desfazem com um sopro. E talvez seja essa a função do dente-de-leão no mundo: mostrar a efemeridade das coisas. Lembrando que sempre nascerão outras flores, basta saber o tipo de semente que se tem em mãos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Relatividades

Lá pelas tantas da madrugada, foi jogar uns papéis no lixo quando se deu conta de uma luz forte do lado de fora. Abriu o vidro da janela e, assustada, viu q a luz era rosa, forte e provinha de um objeto voador estranho, que levantava voo e propagava uma rede de luz gigantesca, a qual piscava freneticamente ao seu redor. Foi correndo pegar a câmera, mas assim q ligou, a luz do objeto voador foi desligada. Como se tivessem percebido. Desolada, voltou para a sala e recomeçou a guardar umas maquiagens dentro da bolsa, coisa q fazia antes de avistar o tal disco voador no céu. De repente, se deu conta da futilidade de sua situação: “Eu aqui, me preocupando em guardar maquiagens, enquanto coisas muito mais avançadas acontecem no universo!”. Ficou um tempão parada, olhando pro nada e entendendo tudo. Percebeu como as preocupações do ser humano são fúteis diante da grandiosidade do universo. Que ela nunca iria desvendar.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Olhando de fora





"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota" 


(Caio Fernando Abreu)


(imagem retirada do Google)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Realidade turva

Ela parou em frente à porta de vidro e tentou abrir. Nada. Empurrou com mais força e descobriu que estava trancada. Olhou as pessoas lá dentro - como tinham entrado?  - comendo e conversando alegremente, sem notar sua presença em frente à porta. Só foi vista por uma senhora bem velhinha (em contraste com a loja tinindo de nova, recém-inaugurada) que a observava lá de dentro sem dar muita importância, como se visse apenas mais um elemento monótono da paisagem. 

Então, para chamar a atenção, começou a bater na porta e a acenar freneticamente. Ninguém viu. O vidro tornava a realidade do outro lado anos-luz distante do agora. Todos pareciam viver em uma dimensão paralela, como um filme mudo rolando do outro lado do vidro, uma festa sem som da qual ela não participava. 

Passaram mil coisas pela sua cabeça. Tinha chegado atrasada, obviamente, e ficou trancada por fora. Ninguém queria saber de mais gente lá dentro. Ou aquelas pessoas eram todas convidadas VIP. A porta continuava trancada, assim como a sua percepção da realidade. Depois de muito tempo e esforço para se fazer notada e quase desistindo, se deu conta de que havia outra porta, muito maior, na lateral do recinto. Estava aberta, sem impedimentos, o que não havia notado porque passou muito tempo olhando para a outra porta, trancada. Embora o vidro fosse transparente, sua percepção continuava turva.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Um alento

Vejo as pessoas lááá embaixo, tão distantes e pequenas. Formigas urbanas caminhando em filas, voltando do trabalho que realizam automaticamente sem questionar. O amontoado de prédios ao longe mostra que não há mais espaço pra respirar. O horizonte também é delimitado pelos contornos da serra, sinuosos como se tivessem sido desenhados pela mão de uma criança. Congestionado, o trânsito contrasta com a livre passagem das nuvens no céu. Mas há dias em que ambos trabalham juntos, carregados, nuvens de chuva produzindo um mar de carros.

A fumaça escura aparece de repente, deixando turva a visão da realidade que ficou por trás. Há fogo em algum lugar e o cinza da fumaça se mistura aos prédios de concreto, confundindo-se com a poluição.

A lona de circo ao longe deixa a sensação de que nem tudo é ferro e fogo na cidade. Mas onde estão os palhaços? 

Há vida no trator que parece dançar ao abaixar e levantar suas pás, ao som de motores frenéticos e do trem. Mas quem dança de verdade são as sacolas plásticas, ao sabor do vento.

Até no caos da vida urbana encontra-se poesia cotidiana, um alento.





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tanto amor em um tico

Sinto falta dele correndo pela casa, brincando com o papel higiênico debaixo da porta, com a baratinha de plástico. Pulando nas minhas costas de surpresa e ronronando quando eu chegava do trabalho. Sinto falta de ficar observando aquele sono leve, cheio de sonhos felinos e encanto. 

Ainda posso ouvir o ruído das patinhas no silêncio da madrugada, o andar macio como que se pisando em nuvens. O miado de criança e o barulho da placa de isopor sendo arranhada. Não há nada que pague nem apague da memória aquela carinha tomando sol e cheirando o vento. Nem a maneira com que brincava com os fios do fone de ouvido e do meu cabelo. À noite, à luz do aquecedor, eu me derretia com o olhar amoroso brilhando no escuro. 

Lembro bem de quando ele chegou, numa quarta-feira chuvosa do dia 11 de dezembro (exatamente como hoje. A vida e suas reincidências), na caixinha de papelão - aprendendo com certa dificuldade a andar sobre o tapete macio. Éramos duas crianças e crescemos juntos, na mesma proporção que o amor. Quando acabavam as aulas, eu espalhava pelo chão todas as provas e folhas de matérias acumuladas durante o ano e ele corria e se jogava comigo em cima dos papéis, na maior farra.

Da vida difícil que levava na rua, cheia de fome e doença, bebendo água da chuva e revirando o lixo, ele ganhou uma família enorme e um espaço maior ainda no meu coração. 

Como não amar um ser que tem medo de bolha de sabão? 

Quase 17 anos se passaram e em maio desse ano ele partiu, deixando uma saudade do tamanho do universo. Como é que uma criatura tão pequena pode deixar um vazio tão grande? Acho injusto que animais domésticos como cães e gatos vivam menos, mas acredito que esse pouco tempo de vida seja suficiente para que consigam  assimilar o amor, enquanto nós, humanos, levamos o dobro ou o triplo de tempo para isso. 

Tico querido, você me deixou um legado de amor que muitas pessoas não conseguem transmitir.  E é difícil voltar a encarar o mundo sabendo que não encontrarei em nenhum outro lugar a pureza e bondade que existiam em você. Seja em vida, sonho ou pensamento, te amo.



E como diria Caetano, 

"Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar, tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar"

terça-feira, 26 de novembro de 2013

De passagem

Todas as mesas enfileiradas, repletas de papéis, revistas e bichinhos coloridos em cima dos monitores de computador. Tudo tão desorganizado e espalhado, mas demonstrando o estilo das pessoas que ocupavam cada uma das mesas. 

A sala estava clara, mas Ana, sentada à beirada de uma das mesas, só via névoas. Ali não era, definitivamente, o seu lugar. Só estava de passagem, como nuvem, como vento. Vendo tudo e não se prendendo a nada. Apenas observando e cumprindo obrigações.

Em cima do monitor, o pequeno vaso de flores murchas que um dia foram roxas completava a falta de vida dos sinistros manequins abandonados em frente à janela, uma vitrine onde não seriam vistos por ninguém. Posicionados cara a cara em pose sensual, deixavam eminente uma cena de beijo que nunca se realizaria. O tempo triste lá fora denotava que, por mais que fosse verão, o sol não estava presente, o que deixava a sala,  as conversas e as pessoas muito mais frias do que já eram. 

Os olhos de Ana não saíam do calendário, do relógio, dessas coisas que medem o tempo.

O tempo, sempre de passagem. Assim como ela.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Faltando peças

Sempre gostei de montar aqueles quebra-cabeças gigantes, de mil peças. Não é fácil e nem rápido montá-los, a não ser que você já conheça bem as peças e onde elas se encaixam. Com o passar dos anos, fui pegando o jeito, acertando o lugar de algumas peças e errando outras. Como na vida. Com a diferença de que nos quebra-cabeças eu sempre perdi algumas peças, enquanto na vida ainda não achei outras, o que denota incompletude do mesmo jeito.   

Em alguns setores, como o afetivo, já me encontrei, mas há outros em que ainda faltam as peças. Algumas até se encaixam, mas ainda não têm as arestas no mesmo formato do espaço a ser preenchido. É como tentar vestir uma roupa apertada: você sabe que não serve e acaba se machucando ao tentar ajustá-la em seu corpo. É por isso que existem os provadores. Vestiu e não serviu? Pega outro tamanho! O problema é que na vida as araras de roupas não estão fáceis e à disposição para escolher sem pressa e a tendência é levar algumas saias justas.

Tô vestindo algumas dessas no momento, até achar as que me sirvam.

sábado, 12 de janeiro de 2013

O tal do timing


- E por que não agora?

(...)

- Eu sinto que o nosso momento passou, só isso.

(...)

- Meu timing não é muito bom, né?

Não. E justamente por este motivo é que a relação entre Dexter e Emma, casal protagonista do livro Um Dia, de David Nicholls, é tão conturbada. Eles se gostam e sabem disso, mas não estão juntos porque não têm o mesmo timing. Têm um sentimento em comum que é despertado em momentos diferentes. Vivem a chance e o momento de ficar juntos e não percebem, não aproveitam.

Deixar passar o instante certo pode ser erro fatal. Se demorar um minuto, talvez o perca. É como esperar o dia clarear para acender a luz ou tomar o sorvete depois que derreteu. A história por trás do “você demorou tanto que agora eu nem quero mais!” e daquele momento em que a gente se pega, após uma discussão, pensando “aai, eu deveria ter dito isso! Por que não falei?”. Porque perdeu o timing da coisa. Perdeu, playboy.

Quem dera ser possível ajustar o dito-cujo como um ponteiro de relógio e sem horário de verão para confundir. Mas o timing é tão abstrato quanto um quadro de Kandinsky. É questão de percepção, mesmo. De pegar no ar, antes que se vá.

Pensando por esse lado, seria bom se tivéssemos a vida de Bill Murray no filme Feitiço do Tempo: acordar e o dia ser exatamente igual ao anterior, com os mesmo acontecimentos se repetindo nos mínimos detalhes. Chega uma hora em que, de tanto vivenciar os mesmos momentos, ele sabe a hora certa de agir e a coisa certa a dizer.

Deixar passar o momento é como perder o ônibus, só que pior: não dá pra ficar parado no mesmo ponto e é bem capaz que não passe outro. Pelo menos, não para o mesmo destino.

(texto meu publicado na edição 31 da Revista Offline)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Sinais



Todo mundo que convive comigo sabe que sou meio maluca mística e acredito que a vida nos manda alguns sinais vez em quando. Por exemplo, se alguma coisa não vai dar certo, acontece outra antes pra impedir, coisa e tal. Se aparece uma nova oportunidade, tudo parece conspirar pra que ela aconteça. E por aí vai. Fico ligadona nessas coisas e outra ideia em que eu acredito bastante é que se você começa um novo ano com boas energias, é com elas que o ano vai andar. O contrário também vale.

Fiz toda essa introdução para chegar ao ponto principal: 2012 não foi dos melhores anos. E, engraçado é que, voltando os acontecimentos na memória, lembrei de um que me fez confirmar ainda mais minha teoria. No final do ano passado eu entrei no metrô praticamente vazio, sentei e então me dei conta de que havia um envelope branco bem na minha frente, no chão. Curiosa, peguei pra ver e tinha uns desenhos feitos à mão muito fofos, com os escritos “Feliz Natal” no topo. “Que bonitinho!” – pensei. Até abrir o envelope. Dentro, havia outros desenhos natalinos, dessa vez com um diabinho HORRENDO e os dizeres: “E um péssimo ano novo, seu otário! HAHAHA!”.

Não sei quem foi o louco que fez e deixou um negócio desses lá, na hora até achei engraçado e tals, mas depois fiquei com isso na cabeça, confesso que me assustei. Na época o fim de ano estava próximo mesmo e, coincidentemente, 2012 foi assim, digamos, uma merda. Com o perdão da palavra, mas foi mesmo. Tirando algumas coisas que foram ótimas, foi um ano super parado e na companhia de pessoas que só se aproximaram de mim para tirar algum proveito próprio e aparecer quando era conveniente.

O bom é que a gente abre o olho e segue aliviada por ter percebido essas coisas, mas não foi por falta de aviso. Aquele cartão de Natal anônimo era um sinal nítido de que o ano não seria lá aquelas maravilhas e eu tive vários outros sinais ao longo de 2012, deveria ter ficado atenta. Enfim. Só passei por aqui pra relatar isso, mesmo. Pode não fazer sentido ou parecer louco, mas a vida não é exatamente assim? 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fantasias

No ambiente escuro Vilma conseguia ver piratas, palhaços e mágicos. Todos passando ao seu lado naquela atmosfera onírica e estranha. Tão estranha que mal conseguia identificar os rostos que circulavam por ali, movendo-se com suas fantasias pelas portas de madeira em vai-e-vem, como as de saloon. Ela olhava por baixo de cartolas, máscaras e óculos escuros em vão, procurando-o sem sucesso. Era certo que o homem misterioso viria, só não sabia quando.

As horas avançavam e ela dançou, beijou e bebeu, sem sombra do que procurava ver. Mesmo com aquele mundaréu de gente, a festa parecia vazia sem ele. A música não parava e pessoas fantasiadas escorregavam e caíam nos degraus da escada que vinha lá de cima. Não ouvia barulhos nem conversas, apenas via cenas, como um filme antigo e mudo rodando à sua frente. Seu vestido branco iluminava o caminho e ela olhava para os lados a todo instante. Lá pelas tantas da madrugada, olhou para a esquerda e disse:

- Achei!

Era o rosto perfeito de cabelos castanho-claros surgindo na escuridão, iluminado pelas luzes coloridas que se alternavam na pista de dança. Sua mente tocou always something there to remind me, com todos aqueles sinos, mas não era essa a música ambiente. Ele estava sem fantasia, vestido como no cotidiano. “Comé que alguém vem sem fantasia numa festa à fantasia?”. Mistério.

Ele veio cumprimentá-la e Vilma ficou nas nuvens, sem dar bola para o fato de que apenas ela tinha fantasias. Ele não. Mas o cara possuía muitas máscaras. E isso ela só veio a saber depois.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Instabilidade


A bagunça dentro da bolsa refletia os pensamentos na cabeça. Tudo jogado, misturado e perdido num espaço apertado, que ia ficando ainda menor conforme os objetos eram tirados da gaveta e colocados ali. Blocos de anotação, enfeites de mesa, pacote de bolacha. Uma coisa não tinha conexão com a outra e nada mais pertencia àquela sala.

Guardou os pensamentos na bolsa, os objetos na cabeça e saiu dali, lidando com o inesperado, rumo ao desconhecido. Despediu-se do prédio tão conhecido, que agora não passava de passado.

O tempo instável lá fora condizia com a sua vida nos últimos tempos. Os livros pesavam nos braços, os pingos de chuva tornavam o tempo ainda mais frio.

- Estabilidade não tem preço nessa vida. 

Foi a frase que ouviu enquanto sentia-se andar sobre uma gangorra.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dois mil e vinte e dois

Mês passado fui tomar vacina contra o tétano, aquela que se toma a cada dez anos. Era 7 de março e, ao sair do posto de saúde, dei uma olhada na carteira de vacinação e deparei-me com a seguinte data da próxima vacina: 7/03/2022. DOIS MIL E VINTE E DOIS!

Cara! Pensar nisso me deixou bem louca, afinal, se em um ano muda muita coisa na vida, imagine em dez! E, se o mundo não acabar até lá e eu estiver viva, que diabos estarei fazendo em 2022? Estarei eu casada? Solteira? Com filhos? Sem? Trabalhando? Estudando? Morando aqui? Lá? E isso? E aquilo?

Pensar na vida daqui a dez anos é muito mais assustador do que se imagina. Fechei a carteira e guardei na bolsa. Melhor deixar o futuro no lugar dele.

Tô vacinada contra o tétano. Contra devaneios e divagações, não.

terça-feira, 13 de março de 2012

Sem razão

Não quero mais racionalizar situações, nem pensar sentimentos. Chega de querer classificar tudo dentro do certo e do errado. Quando o certo não te faz feliz no momento e o errado te ensina muita coisa é que você entende o que eu quero dizer. 
 
Você diz “no lugar de fulano, eu faria isso”, até descobrir que NÃO, não faria! Pode ter passado a vida inteira com opinião formada sobre a situação de fulano, mas só quando passa por ela é que consegue perceber que as atitudes dependem dos sentimentos e ideias que surgem no momento. E aí, meu filho, na prática a teoria é outra.
Tô aprendendo que a vida não é uma ciência exata onde você pega seus sentimentos e atitudes e encaixa dentro de fórmulas matemáticas que os expliquem para que façam sentido. Não precisam fazer. E geralmente não fazem. Não precisa entender por que agiu assim e não assado, nem por que o fulano é como é ou fez o que fez. Já foi, não dá pra voltar e alterar. E aposto que, mesmo se pudesse agir diferente, você ainda se questionaria por que agiu assim. Você, não. Eu.

Eu com minha mania de pegar o abstrato e querer torná-lo nítido, tentando entender a razão de tudo. Não dá certo, vai por mim. Tentar entender é passar por cima de tudo o que há de inexplicável e incoerente por trás das situações. E, muitas vezes, a gente precisa do inexplicável e do incoerente pra ser feliz.

Num mundo repleto de relatividades, nuances e variações, não dá pra ficar num ponto de ônibus pensando por que isso, por que aquilo, como eu fiz antes de vir pra cá escrever esse post. Eu só não quero mais ter de me explicar (pra mim mesma).

"Apenas uma observação, meu amigo: as coisas, neste mundo, raramente se resumem no esquema do preto-e-branco, nas alternativas claramente definidas. Os sentimentos e as maneiras de agir são tão variáveis  quanto as gradações entre um nariz aquilino e um nariz chato." (Werther, de Goethe).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mau contato

De manhã, o chuveiro não esquenta, o que a faz lembrar do fone de ouvido que funciona de um lado só e da tecla do celular que não responde mais ao toque. Computador travado é rotina, ponteiros do relógio de pulso param e depois voltam a andar.

E os contatos pessoais, também tão rápidos e temporários, logo não funcionam mais. Assim como as promessas.

Há muito tempo as coisas não estavam funcionando por completo, mas aos poucos, tão fugaz e sem estabilidade.

Depois descobriu que não eram as coisas, nem os aparelhos, tampouco as tomadas. Era a vida que estava dando mau contato.

(Imagem retirada do Google)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Acaso

- Posso te fazer uma pergunta?

- Pode

- Você ama as coisas que tem, ou tenta entender as coisas que tem?

- Por que tá me perguntando isso?

- Responde!

- Bom, eu tento entender né, mas nem sempre consigo.

- Você tá errada.

- Hã?

- Tá errada! Por que acha que não consegue entender?

- Não sei, ué.

- Veja eu: amo as coisas que tenho, sem me questionar o porquê delas ocorrerem, nem tentar entendê-las. Entender eu deixo para os iludidos.

- (...)

- Eu sei que a gente não vai se ver mais, nunca mais, a não ser que a gente se encontre novamente por acaso, sem querer, como aconteceu hoje. Tchau.


(Ele sempre teve a mania de aparecer do nada e dizer tudo, respondendo em voz alta as perguntas que meus pensamentos faziam em silêncio. Melhor nem tentar entender.)


(imagem retirada do Google)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre o tapete voador

As luzes coloridas giravam, giravam, giravam vagarosamente na noite. Mas ela, parada lá embaixo, olhava sem muito interesse. Já havia ido lá. A roda gigante não exercia mais tanta atração. Nem o trem-fantasma, onde momentos antes o primo medroso gritara assim que surgiu a aranha de plástico na escuridão. Ela queria novas sensações, mais perigosas, sem se dar conta de que o maior perigo era não ter medo.

Com seis anos de idade já enxergava o extraordinário em coisas comuns e por isso, dentre tantos brinquedos mecanizados e modernos, interessou-se justamente por aquele que estava parado. Era uma montanha enorme, cheia de ondulações compostas por escorregadores listrados em cores vivas e diversas. Um arco-íris na noite. Sobre ele, pessoas deslizavam sentadas em um tapete. O fascínio foi tanto que ela, quando percebeu, já estava no topo do tobogã, ignorando os avisos da mãe para tomar cuidado.

Afobadamente sentou-se sobre o tapete marrom e pediu para o primo empurrar. Mas ele deve ter entendido algo como “arremessar”, e prontamente aplicou nas costas da menina um impulso de canhão. Em vez de escorregar, ela foi lançada ao ar como Aladim sobre o tapete voador. Pegou tanta velocidade que logo se viu sem o acessório mágico, que escapou debaixo dela e voou em outra direção.

As cores do arco-íris mesclaram-se num giro louco, de ponta-cabeça e invertidas, sumindo a reaparecendo, uma aquarela sem sentido nem controle misturando-se ao céu noturno que ora ficava em cima, ora embaixo, o vento fresco acariciando seu rosto e logo em seguida tacos de madeira batendo nele com força. As luzes do parque giravam sem controle e pequenos gritos ecoavam no ar. Foi tudo o que viu e sentiu enquanto caía sobre o tobogã e chocava-se sucessivamente com suas ondulações decrescentes.

Chegou ao final do arco-íris deitada, escorregando com a cara no chão até parar. Foi recepcionada por rostos desesperados e nenhum pote de ouro. Ouro mesmo eram os conselhos da mãe, que ela nunca ouvia.

(imagem retirada do Google)
 
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